01/10/10

Azul

Sou um ser com necessidade de poesia. Por isso cozinho. Por isso ouçou Jorge Drexler, Astor Piazzola, Paco de Lucia e Chico Buarque – a depender de querer deleite, nostalgia, vigor ou consciência.

Por isso blogo. Por isso adoro os dias de chuva, quando toda a natureza parece se espreguiçar, “como um corpo ressequido que se estira num banho tépido”, como diria meu caríssimo Eça.

Por isso, às vezes é preciso parar e escrever. Não escrever o que se sabe, mas escrever o que se sente. Escrever os desejos, escrever a sensação de liberdade a qual todo o pensamento pode ter acesso – a sensação que se alimenta das palavras e, ao mesmo tempo, as gera. Que faz com que nos sintamos tão nada e, até por isso, tão imensamente grandes (porque se somos nada, somos tudo. Somos ar.). Em momentos como esse, minha alma se enxerga azul.

Engana-se quem pensa que essa sensação é meramente transcedente, como se só o transcender fosse poético. Não, ela é física. Física e movida a cinco sentidos. A sensação de liberdade faz o corpo funcionar de outro jeito. Faz os cheiros mais perceptíveis, os toques mais emocionantes, os sabores mais intensos e os sons mais palpáveis. A sensação de liberdade é um tesão.

De onde ela vem? Não sei, mas desconfio que seja de nos sabermos senhores de nós mesmos. De sentir que temos escolha. A possibilidade de fazer escolhas é a melhor coisa que podemos querer nessa vida.

--------  --------------
Há cinco minutos, em meio a todo o enlevo criativo desse texto, a magia se quebrou. Recusei uma bolsa de mestrado. Por puro senso de responsabilidade – não quero ser cobrada por relatórios e prazos que não conseguirei cumprir. Fui prática e disse não.

Achei que esse pragmatismo todo se traduziria em um texto sem final. Eu já havia aprendido que “ las musas huyen si las asedias”. Por isso estava pronta para desisitir.

Mas foi só colocar o Jorge Drexler para cantar no meu ouvido e a poesia me deu um último aceno – já da porta – e me jogou o último parágrafo como quem joga um beijo. Assim, colocando-o na palma da mão e soprando. E as palavras vieram voando para mim, como borboletinhas invisíveis, e pousaram nos meus dedos.

Valeu, Jorge, por ter mandado uma de suas musas em meu socorro.

2 comentários:

  1. Nossa que coisa mais linda! que percepção mais gostosa! seus textos sã uma delícia!

    ResponderExcluir

A palavra é sua!