Há dias em que o mais legal dos trabalhos fica chato porque o que vc quer é não trabalhar. Estou num dia assim. Acabei de almoçar e tomar vinho, afinal, estou em férias. Fiz um prato cujo nome vem muito a calhar hoje – Preguiça de Mulher. Como a minha amiga Lara, eu também adoro comidas com nomes divertidos. Não dizem nada sobre os pratos que batizam, aliás, dizem, mas é como literatura – está nas entrelinhas porque a estética é mais importante que a informação.
Preguiça de mulher é uma espécie de nhoque pobre de ingredientes, mas riquíssimo de sabor – é delicioso. Faz-se misturando ovo, leite, um pitada de sal, fermento químico e farinha até dar o ponto, que deve ser mole, meio como bolinho de chuva. Para quem nunca fez bolinho de chuva — mistura a farinha até a massa ficar meio puxa-puxa, mas ainda podendo ser mexida com a colher.
Aí pega umas sobrecoxas de frango — isso já é inovação. Inovação incremental, pelo que li até agora (sim, o livro no qual estou trabalhando agora é sobre criatividade e inovação). Inovação porque na roça, quando eu era infanta (essa palavra é pra Nilza), cozinhava-se o frango todo, afinal, éramos nove bocas e o pobre do bicho só tinha duas coxas e duas sobrecoxas. E um pescoço, duas asinhas, uma moela, um coração, etc. Amávamos tudo isso, e disputávamos a tapa o pedacinho que nos cabia. Obviamente que não dava para dividir tudo em 9 porções, então, quem comia a moela, não comia o coração, quem comia o fígado não ganhava a asinha, e assim por diante. Ah, tinha também a sambiqueira e a oveira. Ninguém mais deve saber o que é isso, mas eu conto — a sambiqueira é a porçãozinha de gordura que fica acima da cloaca da galinha. É um prolongamento da coluna, acho eu. A oveira deve ser um canal interno onde o ovo é produzido, ou algo assim. Só sei que gostávamos.
Mas voltando ao rango. Pega-se umas sobrecoxas, tira-se a pele (para comer sem culpa), doura-se bem em óleo. À parte refoga-se, em uma panela grande e de boca larga, cebola e alho. Junta-se ao refogado as sobrecoxas já douradas, depois bastante tomate picadinho (eu processei, gente, que tava com pressa). Deixa-se o negócio apurar um tanto, mexendo de vez em quando. Quando estiver bem refogado, um molhão, coloca-se água quente até cobrir bem as sobrecoxas, tampa-se a panela e deixa-se a ferver. Aí. Nesse meio tempo, deve-se acertar o sal. Quando as sobrecoxas já estiverem cozidas, coloca-se a massa, às colheradas, dentro do caldão. Não, não. Não é para tirar o frango. É para deixar cozinhar tudo junto mesmo.
Se precisar mexer, faça-o com cuidado para não desmanchar as preguicinhas.
Aí é só esperar os grumos de massa cozinharem. É rapidinho. No meu fogão deve ter levado uns 10 mintuos. Mas também, para saber se está cozido pega um e experimenta, uai.
Para finalizar, coloquei um tanto de manjericão fresquinho (colhido no pé, na hora) picado, e reguei com um fio de azeite.
Comemos com um vinho tinto. Um uruguaio honesto e de muito bom preço, da vinícola Pisano. Era um corte de Merlot com Tanat que eu, com meu tiquinho de nada de conhecimento sobre vinhos, achei que caiu muito bem, porque a comida é mais encorpada do que parece.
Voilá, uma receita sem formato de receita!
E você já descobriu porque o prato leva o nome citado? Não? Então vai ter de fazer para descobrir.
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Deu até fome (e uma pontinha de inveja!rs)
ResponderExcluir:)
Aiii... deu uma saudade das nossas aulinhas de culinária! rsrs
ResponderExcluirBreve nós as retomaremos, querida.
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