Ontem uma conversa com meus amigos Edu e Hélio me levou a filosofar.
Os meninos trabalham na área de moda e beleza e, segundo eles, meu visual não tem nada a ver comigo. Eles afirmam que eu confundo as pessoas porque tenho idéias contemporâneas, mas meu cabelo e minhas roupas têm, como disse o Edu, “cara de mamãe eu vou à missa”. Justo eu, que, quando vou à missa, é para olhá-la do ponto de vista do ritual mágico!!!!!
Achei divertido. Minha porção quase leonina sempre acha divertido falar de si mesma. Mas fui embora pensando nisso.
Concluí, embora, talvez, com certo otimismo, que isso é mais um elogio do que uma crítica. Êêêêê, não me enquadro em padrões!
Na verdade, acho que ninguém se enquadra. Todos somos múltiplos e diversos, e é justamente a crença geral de que há padrões que nos faz ser infelizes. Claro que eu não sou um ser iluminado. Estou mais prá galera do que para Buda, então, também estou nesse barco, como todos, ou quase todos, que vivem em sociedade – também sofro eventualmente porque minha bunda não se encaixa na calça jeans tamanho G, mas outras vezes, num átimo de lucidez, me dou conta que não fui eu que inventei o que deveria ser o tamanho G, e que minha retaguarda é do tamanho que é e pronto, acabou.
Mas a filosofia continuou. Vindo trabalhar, hoje, subia a ladeira da minha casa pensando que, supridas as necessidades básicas – casa, comida, afeto, segurança e diversão, ou seja, tendo qualidade de vida, para usar uma expressão mais moderna, ser feliz ou não é uma escolha. Se vc tem tudo o que precisa para viver bem, dá para ser feliz sem caber numa calça tamanho G, dá para ser feliz sem viajar para o lugar da moda, sem frequentar os lugares da moda, sem consumir os produtos que a mídia torna tão “essenciais” em nossas vidas. É uma questão de relativizar, ao invés de absolutizar as coisas. Adoro viajar, mas se não puder fazer isso nas férias, posso escolher ficar infeliz as férias todas, lamentando o que não rolou, ou posso escolher ficar em casa, comendo pipoca, dormindo, vendo tv e fazendo tudo o que nunca tenho tempo para fazer... e ser feliz. Posso afirmar isso porque já vivi as duas coisas. Supridas as necessidades básicas, ser feliz é uma questão de dar leveza à vida.
Muita gente genial já filosofou sobre o viver. Guimarães Rosa diz que “viver é muito perigoso”. Pessoa diz que “viver não é preciso”. E por aí vai. Quem tinha razão? Provavelmente todos tinham razão. Precisamente porque somos múltiplos, as verdades também são múltiplas e relativas.
Já vi pessoas sofrendo genuinamente em relacionamentos amorosos por coisas que, em si, não representavam quase nada. Nós, pessoas que somos, temos um certo compromisso romântico com o sofrimento, achamos o sofrimento bonito, digno. Disso eu também posso dar testemunho, pois também já fiz meus pactos com o sofrimento, e às vezes ainda me pego fazendo-os (e olha que lá se vão uns 10 anos de terapia!). Há nisso um certo quê da cultura judaico-cristã, sabe, aquele papo de ser digno da vida eterna? Pois sim... se eu fosse Deus, ia mais era querer junto de mim gente que achasse a alegria bonita.
Não, não estou sendo Polyana e achando que dá para ser feliz com um amor e uma cabana, até porque, adoro conforto e internet, não tomo banho frio nem a pau e não vivo sem creme hidratante, mas dá para diminuir a ansiedade e parar um pouco de tentar encaixar a nossa própria vida, a nossa própria personalidades e nosso próprio corpo em padrões pré-concebidos. Também dá para conviver bem com uma certa frustração, colocando a razão e a intuição para nos salvar nos momentos em que nos sentimos sufocados pelos padrões sociais estabelecidos, sejam eles de beleza, de sucesso, de riqueza ou de descolação (esse substantivo não existe, por certo).
Mas, voltando ao princípio, segundo os meninos, eu confundo as pessoas. Esse filosofar todo me levou a perceber que talvez isso nem me soe tão estranho assim; tenho um certo prazer em ser, digamos, surpreendente. É um risco, porque as pessoas podem não gostar da surpresa, mas acho que convivo melhor com a idéia de não ser gostada do que com a idéia de não ser lembrada. E sempre lembramos do que nos surpreende, certo?
E tem mais; há em mim um traço atávico de rebeldia. Isso poderia me fazer pintar os cabelos de quatro cores diferentes e eriçá-los num moicano mutcho louco, mas, ao contrário, minha principal rebeldia consiste em me divertir (e às vezes sofrer um pouco) sendo um exemplo vivo de que padrões pré-concebidos não funcionam sempre.
Mas, como é difícil rebelar-se full time contra os padrões, meus amigos podem continuar me dando conselhos para ficar mais bonita. Eu vou amar!
E dá-lhe terapia!
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46 minutos atrás
que coisa mais linda!!!!
ResponderExcluircaiu como uma luva GG, para quem andava PP por conta de muito marlboro no peito!
e estava tão infeliz com isso... bem ainda estou um pouco, mas vou melhorar!
bjks
Ana, minha flor. Linda é vc. E que a vida lhe seja leve...
ResponderExcluirMá, vc é demais!!! Amay o texto, a filosofia toda, o "mamãe vou à missa" e todo o resto!
ResponderExcluir:D
Ainda bem que vc existe!
\o/
Tava indo ali no salão cortar a juba, mas tô pensando um "cadinho" antes.
ResponderExcluirAmo vc
Pessoas queridas, isso é identificação. Todo mundo, quando se vê em vídeo, acha que aquela voz e aquela bunda não podem ser suas. hahahaha
ResponderExcluirNão diria que vc seja "iluminada" (pq isso está relacionado a um sobrenatural que deixo pra depois), mas ninguém pode negar que vc é bem esclarecida. Por isso, amamos vc. - SAMUEL
ResponderExcluirAmei o texto, tem partes que parece que fui eu que escrevi (assunto tratado em terapia, 3 anos e meia, tive alta, não sei por qto tempo, rs). Muito bom!
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